quarta-feira, 9 de março de 2011

Filme: A Marselhesa

La Marsellaise - 1938 (mais informações aqui)
Direção: Jean Renoir
Roteiro: Jean Renoir, Carl Koch
Elenco: Lise Delamare, Louis Jouvet, Pierre Renoir

Para começar, é preciso dizer que Jean Renoir é filho do famoso pintor fracês Renoir, da época das Vanguardas. O pai tinha um olhar apurado da paisagem humana da época, algo herdado pelo filho. E o filme foi produzido durante o primeiro governo socialista francês, chamado Frente Popular, com o objetivo de forjar uma identidade dos pais da Revolução Francesa - neste caso, o povo foi apresentado como o principal elemento dessa história. O filme retrata um grupo de patriotas que sai de Marselha a caminho de Paris para confrontar a aristocracia francesa e o rei, que pela nova constituição, mantinha-se no comando, com poder de veto.

O roteiro fala do povo. O espaço para a nobreza é muito pequeno. Começa com a tomada da Bastilha e o rei, em seu palácio, calmamente comendo. Em seguida, já vemos a população lidando com a repressão do período jacobino da revolução. O rei, interpretado por Pierre Renoir, é apresentado como um fanfarrão, comilão e irresponsável. Sempre que ele aparece, o castelo está em polvorosa com os acontecimentos políticos e ele está calmo, deliciando-se com um prato de comida. Algo que Carla Camuratti usou em Carlota Joaquina e que sempre vemos quando a intenção é ridicularizar os membros da nobreza. Há uma cena em que parte da nobreza está exilada na Alemanha, também deliciando-se com um jantar, um deles brinca, inocentemente, com um ioiô. Ou, em outro momento, quando a rainha Maria Antonieta diz que é impossível confiar em quem escova os dentes diariamente.

Os populares de Marselha, inflamados, resolvem iniciar ali mesmo uma revolta. Com um barril de vinho, fazem um cavalo de Troia e entram no forte da cidade, rendendo os guardas e tomando suas armas. a redição é praticamente imediata. É interessante notar que os tiros só serão disparados na terceira parte do filme, quando há o confronto direto com a tropa que guarda o castelo real. Bomier, o personagem principal, é como um Didi Mocó francês. Falastrão, atrapalhado, galanteador - a cara do povo. Ele se alista no regimento de Marselha e segue com seus companheiros para Paris. À medida em que marcham, o embrião da Marselhesa é criado, e os alistados se apropriam da canção. É por ela que serão identificados ao chegarem a Paris, de forma tão intensa que a música será depois, escolhida para ser o hino do país. Alguns elementos do filme reforçam a época em que a obra foi criada. Um exemplo é o "cidadão", vocativo dado a todos, exaustivamente, como o "camarada" era utilizado na Rússia comunista. Apenas a aristocracia se recusa a ser chamada de "cidadã". 

É interessante ver uma produção tão antiga e encontrar certas técnicas de filmagem que tratam de dar ao filme um caráter narrativo, como os diálogos que acontecem fora do quadro já nos primeiros momentos da exibição. E os movimentos de câmera, hoje tão comuns com as gruas, que faziam tomadas de inúmeros figurantes uniformizados, prontos para partir para Paris. É inevitável pensar em como Jean Renoir conseguiu um movimento tão harmônico no passeio da câmera pela multidão. Algo que sempre me chama a atenção em filmes antigos é a aparição dos créditos técnicos antes do início da história. E as trilhas sonoras, orquestradas. Neste caso, música de câmara da época dos bailes e serões. Por outro lado, o som ambiente desaparece - ou tem uma diminuição muito brusca - sempre que algum personagem fala. Isso gera um estranhamento para quem está acostumado com a edição de som atual e a mixagem contemporânea. A forma de narrar é diferente e, por isso, bastante interessante. Há uma série de cenas que, se tivessem sido feitas hoje, provavelmente teriam sido cortadas para dar mais agilidade à narrativa.

E uma alegria: a música que nobres e povo cantam - cada grupo com sua letra - foi usada por Chico Buarque em Alô, Liberdade, canção de Os Saltimbancos Trapalhões:

Ah, sairá, sairá, sairá
Laiaralaialaialaiá
Hoje a banda sairá