sexta-feira, 25 de março de 2011

Filme: Jogo de Poder

Fair Game - 2010 (mais informações aqui)
Direção: Doug Liman
Roteiro: Jez butterworth, John-Henry Butterworth
Elenco: Naomi Watts, Sean Penn, Sonya Davison

O mundo pós 11 de setembro de 2001 é algo bizarro. Com o advento das duas guerras estadunidenses contra o Afeganistão e contra o Iraque, uma série de estudos foi realizado. O que eu li e que mais me marcou foi o livro do jornalista Carlos Dorneles Deus é inocente, a imprensa não. Dorneles analisa como a mídia se utilizou de estratégias de manipulação para gerar certo caos na população americana e pressionar pelas guerras, com um discurso único, com indícios de ter sido criado por algum órgão governamental. É mais ou menos isso - mas nada relacionado à imprensa - que vemos em Jogo de Poder.

O filme é baseado nos livros Fair Game, de Valerie Plame, e The Politics of Truth, de Joseph Wilson. Plame e Wilson são os personagens principais do filme, interpretados por Watts e Penn. Ela é uma agente da CIA que, pela natureza de seu trabalho - ela faz contatos com pessoas chave em países onde os Estados Unidos precisam de informações, precisa manter sigilo sobre ele. Joe, seu marido, é ex-embaixador e, por ter contatos em áreas não tão nobres, como o Níger, é chamado a colaborar em uma investigação sobre a venda de urânio ao Iraque.

Enquanto o filme se desenrola, vemos Valerie se envolver com seus contatos e brigar por ele, enquanto deixa um pouco de lado seu casamento. O casal tenta levar uma vida normal, com jantares regados a vinho com amigos. Mas Joe sempre perde o controle com os comentários cheios de achismos e rasos de conhecimento de seus companheiros de jantar e acaba gerando um climão. Quando Valerie é convocada a largar todos os seus projetos para se dedicar exclusivamente ao Iraque, Joe é o primeiro a sentir. Há uma cena linda quando ela vai viajar e ele, de pijamas, senta-se às escadas de casa e a câmera o fixa atrás da balautrada da escada: ele é um homem aprisionado pela vida e pelo trabalho da esposa.

Talvez seja esse o principal motivo que o leva a escrever um artigo desmetindo a afirmação do presidente George W. Bush de que o Níger vendeu o urânio ao Iraque. Quando esteve lá, a pedido da CIA, ele havia constatado - e relatado - o absurdo que era a informação. Como represália, alguém do governo publica no mesmo jornal a identidade da agente Valerie Plame Wilson. Joe, indignado, se lança a uma luta solitária contra a Casa Branca. O que me fez lembrar daquela frase que diz que, "quem nunca tentou mudar o mundo até os 18 anos é um imbecil. Quem tenta mudar depois disso, é um babaca".

O filme é pontuado por imagens reais de depoimentos de George W. Bush e de sua equipe, incluindo Condolezza Rice, que são categóricos ao afirmar que o Iraque estava produzindo armas de destruição em massa. Enquanto isso, as cidades do Oriente Médio e da África são mostradas em tons terrosos, lembrando algo primitivo, ao contrário dos corredores da CIA, sempre acinzentadas, e a casa de Valerie e Joe, com cores mais vivas.

O grande mérito do filme é trazer novamente à baila o lado invisível das decisões políticas. Porque, no fundo, é preciso pensar no papel que nós, que estamos tão longe dessas esferas do poder, temos nas mesmas decisões políticas. É fácil demais sermos manipulados, pelo governo, pela mídia, pelas massas. Porém, o filme é longo, desnecessariamente.