quarta-feira, 16 de março de 2011

Ela é o orgulho da neta

Quarta-feira é dia de ir ao salão fazer as unhas, bem cedo. Vou feliz, porque tem alguém que faça esse trabalho chato por mim. Mas com dor no coração, porque os papos lá raras vezes são divertidos. Às vezes são chatos, outras são desimportantes. Hoje, o papo me gerou um misto de horror e orgulho.

A conversa se iniciou com comentários sobre o final da novela Tititi. E inevitavelmente caiu sobre o casal homossexual que acabou de acertar as pontas na ficção. Uma das participantes falou que em breve veremos um beijo gay numa novela da Globo. Outra disse que fica chocada com certas atitudes dos homossexuais. Essa mesma contou que um dia alguém perguntou como ela reagiria se tivesse um filho gay.

Não sei nem dizer como foi a cara que ela fez. Mas foi como se tivesse dito que isso jamais aconteceria com ela, porque ela saberia educar um filho. Como se ser homo, bi ou trans fosse uma questão de educação. Como se os pais pudessem escolher o destino dos filhos.

Acho louvável que Tititi mostre um casal homossexual com muita normalidade. Porque não é pela orientação sexual que as pessoas se manifestam normais. Uma coisa que sempre me revolta é que os heteros mais radicais não admitem que casais homo possam trocar carinhos na  rua. Como assim? Então eu, que sou hetero, posso sair na rua de mãos dadas com o Leo, trocar um beijo, um abraço com ele e uma outra pessoa não pode fazer o mesmo com o parceiro só por causa da orientação sexual? Igualdade é uma coisa com a qual as pessoas, em geral, não conseguem conviver...

Mas onde a vovó entra nisso?

É que, na segunda-feira, estávamos vendo a novela juntas. Porque a vovó assiste todas as novelas do mundo. E esta é a única hora do dia em que posso ficar perto dela. Então fico lá, às vezes pescando alguma coisa, outras assistindo mesmo. Tititi eu assisto. E foi na segunda que o personagem Tales, aos berros e em público, disse que estava apaixonado pelo Julinho. Aí, perguntei pra vovó o que ela achava daquilo: os dois tinham que terminar juntos ou deviam era ser heterossexuais. E ela, meu orgulho, disse assim: "Eles não se gostam? Têm que ficar juntos mesmo".

Isso me orgulha porque vovó nasceu em 1918! Tem quase 93 anos e nenhuma obrigação de acompanhar as revoluções sociais. Mas ela tem uma cabeça bem moderninha. Tanto que, quando houve a primeira Parada do Orgulho Gay de Ouro Preto, que ia passar pela porta aqui de casa, perguntei a ela se ela queria ver. Porque veria coisas que poderiam deixá-la desconfortável. E ela disse que não tinha problema. Foi pra janela, viu a parada passar, deu tchauzinho pra todo mundo na rua e voltou para dentro, toda faceira, mais humana e corajosa que muita gente N anos mais nova.

Fala sério, não é pra dar orgulho?