terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A batalha da moça-que-trabalha-lá-em-casa

Esses dias, passamos pela mudança da moça-que-trabalha-lá-em-casa. A Rita, que ficou conosco por quase sete anos, pediu pra sair. E como a vovó não gosta de ficar sem alguém lá, começamos a correr atrás de uma pessoa que, além de trabalho de limpeza, tivesse o dom de cozinhar.

Vovó foi criada em fazenda. Por isso, se acostumou a ter muita comida em casa. O almoço, sempre fresquinho, pães, bolos ou biscoitos também fresquinhos pra oferecer pra visitas. O pavor da vovó é ficar sem alguém na cozinha lá de casa. Como se ela deixasse de ser um boa anfitriã se levar visitantes pra almoçar no melhor restaurante da cidade. É o jeito dela, e a gente não muda o pensamento de alguém com 92 anos e meio de idade.

Por outro lado, há 10 anos eu deixei a casa dos meus pais e passei a me virar sozinha. Meu apartamento em BH era pequeno e era minha responsabilidade. Durante o tempo em que vivi lá, cuidei dele sozinha, sem empregada ou diarista. E curti cada momento. Como eu trabalhava o dia inteiro e ia pra pós-graduação à noite, só me restava o sábado pra arrumar tudo. E em uma manhã eu dava aquela faxina na casa. Não fazia almoço lá, no máximo um miojo na hora em que a fome apertava e a preguiça não me deixava sair pra comer em outro lugar. Foi lá que eu aprendi que não tem trabalho de casa que eu não faça. E faço com gosto. Gosto mesmo de arrumar a casa, colocar tudo em ordem, sentir aquele cheiro de limpeza.

E é por isso que eu não me preocupei muito em correr atrás de uma empregada nova pra vovó. Porque, pra mim, se a gente não achasse ninguém, eu buscaria o almoço no restaurante mais próximo, faria com o Leo alguma coisa pra complementar a comida também e cuidaria da limpeza da casa sozinha, com o auxílio de uma diarista uma vez por semana ou a cada 15 dias. Mas vovó não aceitou essa proposta. E ontem a Aline, a nova moça-que-trabalha-lá-em-casa, chegou. Com uma qualidade que vovó adorou: ela gosta de cozinhar.

O debate sobre uma nova pessoa pra trabalhar lá em casa me fez pensar em tanta gente que tem por aí que tem nojinho de cuidar da casa. Um dia uma pessoa me disse que é humilhante limpar banheiro, que é nojento. Aí eu perguntei se ela ia ao banheiro e contribuía pra deixar ele nojento. E há quem tenha nojo até de varrer, de lavar, de limpar (eu escuto cada absurdo por aí...). Nojo de sujar ninguém tem, né?

Está cheio de mães e pais que não preparam os filhos (não só as filhas) pra enfrentar uma casa. Meus pais fizeram o tradicional: minha irmã e eu aprendemos desde cedo a fazer tarefas domésticas - começamos pequenas arrumando as camas, depois pegamos coisas mais complexas. Eu só não aprendi a cozinhar, que o dom foi todo pra Laura. Meus irmãos não faziam nada. Nem tiravam os pratos e talheres que usavam da mesa pra pia da cozinha. Um deles foi aprender a se virar sozinho quando foi pro exército. O outro, não sei se sabe em que lado da casa fica a cozinha.

O Leo também não foi criado sabendo onde fica a cozinha. Isso me incomodava um pouco nele. Porém, quando ia pro meu apartamento em BH ou pra casa em OP, ele começou a ajudar. Não faz muita coisa, mas aprendeu a arrumar cozinha, lavar e passar roupa, fazer uma arrumação geral na casa. O banheiro ainda é território que ele não arrisca, mas sei que, na necessidade, ele vai se virar. Me anima muito saber que posso sempre contar com ele pra dividir as tarefas de casa. E que ele faz tudo sem reclamar, como um bom companheiro, sem que eu precise pedir.

Daí que hoje encontro dois textos bem legais na net. Um é uma reportagem da Folha de S. Paulo sobre a dificuldade de encontrar aquela empregada tradicional nos grandes centros urbanos e a necessidade da mudança de hábitos das famílias. Acesse aqui. A outra é de um blog feminista e reflete sobre o trabalho doméstico com um pouco mais de profundidade, encarando a questão do subemprego. Acesse aqui.

Em tempo: a Aline tem uma filhinha de seis meses, que fica na creche durante o período de trabalho. Por causa disso, a jornada dela é menor - ela trabalha de segunda a sexta. Sem prejuízo pra ela, pra filha dela e pra vovó. E eu digo "moça-que-trabalha-lá-em-casa" porque não me sinto à vontade para dizer "empregada doméstica" nem "secretária do lar".