quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Do Tião Martins: Educar x espancar

Se te uma coisa que mexe muito comigo é o modo como alguns pais acham que educam seus filhos. Os espancadores, em especial os que afirmam que bater nos filhos é um ato de amor, no meu ponto de vista estão totalmente equivocados. Quem realmente sabe o que é educar compreende que não é preciso nem um tapinha de leve para fazer uma criança crescer respeitando o próximo. Enfim, não vou colocar o que eu penso aqui, apesar de que quem me conhece sabe muito. O que quero, hoje, é trazer um texto do Tião Martins, colunista do jornal Hoje em Dia,  publicado no dia 06 de dezembro. Foi retirado do site do jornal neste link. Infelizmente, não havia como tirar o link especificamente do texto. É o terceiro da página.

Educar x Espancar

Tião Martins - Jornal Hoje em Dia de 06/12/2010
Embora proibido por lei, a aplicação de castigos físicos aos filhos ainda prevalece em amplas camadas da sociedade brasileira, às vezes com resultados dramáticos. Muitos pais espancam os filhos porque apanharam quando crianças e acreditam que este é o único método educacional que funciona.


- Me dei bem na vida porque meus pais foram duros comigo - diz um comerciante, sem a consciencia de que "se deu bem" apesar dos castigos físicos, e não porque sofreu quando criança.


Contrariando o que ensinam psicólogos e educadores, alguns chegam a chamar de "bananas" os pais que conseguem educar sem gritar. Para esses críticos, os pais permissivos e bonzinhos de hoje correm o risco de levar muita porrada, quando os filhos crescerem, pois os jovens não estão sendo corretamente educados e por isso se sentem donos do mundo e com o direito de agredir os mais velhos.


De qualquer modo, a maioria dos que foram punidos ferozmente, quando crianças, tende a repetir esse tratamento em relação aos filhos. É um sinal de que a violência se torna "hereditária" e gera agressividade. Esses conflitos produzem uma carga emocional negativa que pode durar para sempre, inibindo o desenvolvimento intelectual e afetivo dos filhos.


Se você tem dúvida, leia "Infância", de Graciliano Ramos, e "Carta ao Pai", de Franz Kafka. Os dois autores descrevem, com admirável força, o sentimento de crianças que são espancadas e humilhadas pelos pais.


Os jovens - homens e mulheres - que se tornam pais agora pertencem a uma geração que já não sofreu tantos empurrões, beliscões e surras. Mas, infelizmente, não dá para generalizar. Se a violência doméstica, nas classes de menor renda, costuma virar assunto para delegado de polícia, nas famílias das classes média e alta sempre conseguiram ocultar seus excessos "educacionais".


Parece obvio que educar sem bater ou gritar é mais trabalhoso, porque exige autocontrole e paciência, mas a cada dia maior número de pais e mães se convence de que vale a pena.


No futuro, aqueles que foram espancados vão querer vingança, agredindo adultos e crianças. Ou tentarão justificar a conduta dos pais e serão submissos a qualquer manifestação de poder, da mulher, do marido, do chefe, do patrão ou do governo.


Um aspecto interessante, na experiência dos profissionais, é que o castigo físico aplicado aos pequenos só funciona naquele momento. Para obter o mesmo efeito e serem obedecidos, no futuro, os pais terão que usá-lo com frequência cada vez maior e de forma cada vez mais violenta.


Outro resultado bastante comum do castigo físico, quando aplicado desde cedo, é induzir a criança a ocultar dos pais todos os atos que ela imagina que serão proibidos. E como a lista das proibições, reais ou imaginárias, parece não ter fim, a criança passa a ter uma vida clandestina, que precede os voos próprios dos adolescentes.


O conselho que os psicólogos dão aos pais costuma ser de simples compreensão, mas de complexa aceitação: se você aplica uma surra no filho de seis ou sete anos, verá o resultado imediatamente, mas nunca poderá prever os efeitos dessa atitude no futuro adolescente ou no jovem adulto.


Resumindo a ópera, que tira o sono de pais e mães, ser "permissivo" e compreensivo pode produzir desafios no presente e não garante que você terá um filho saudável e feliz, mas uma coisa é quase certa: quanto mais sofrem castigos físicos, mais desobedientes e agressivos os filhos se tornam. E como o castigo físico se associa, habitualmente, a agressões verbais, gritos, nomes feios e outras formas de humilhação, seu filho poderá ser um adulto agressivo e desrespeitoso, com você e com outras pessoas.