terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ensaio sobre a (minha) cegueira

Um certo dia eu percebi que meus olhos me enganavam. Descobri que não tenho facilidade pra guardar rostos. Nome eu guardo fácil, rosto esqueço em dois segundos. Isso significa que se eu não vir uma pessoa por muito tempo, logo logo esqueço como ela é. Aí, no reencontro, eu passo por doida, esnobe ou sei lá. Some-se a isso a distração, que é de família. Resumindo, se eu não te cumprimentei na rua é porque, em quase 70% das vezes, eu não te vi. Se eu vi, é porque não te reconheci. Sério mesmo.

O dia mais grave até então aconteceu quando eu morava em BH. Vi uma pessoa na rua e fui logo pensando que o sujeito parecia com alguém conhecido. Passei por ele e a sensação de que eu conhecia cresceu. Dei mais uns passos e resolvi parar e olhar pra trás. O sujeito estava parado e olhava para mim. Depois de alguns segundos intermináveis, veio o estalo: o cara que parecia com alguém conhecido era meu primo Betinho. Foi desculpável, porque ele também ficou em dúvida (distração é de família, comprovadamente). Conversamos, rimos do episódio e ficou por isso. Procurei um oftalmologista e descobri que não tenho nada de anormal, a não ser a musculatura ocular fraca. O que significa que tenho dificuldades de focar. Isso ajuda a explicar porque eu custo a reconhecer as pessoas. Mas o pior ainda estava por vir.

Esta semana estou em BH para fazer o curso de Teoria, Linguagem e Crítica de Cinema, do Pablo Villaça, do Cinema em Cena. Ele solicitou que os alunos chegassem mais cedo na primeira aula. Cheguei com 25 minutos de antecedência e a sala estava lotada. Tomei um susto, esperava encontrar bem menos gente. Automaticamente, saí procurando uma cadeira vaga e fui parar lá no fundão - o que é ruim, já que eu tenho dificuldades de focar. Na hora da apresentação dos alunos, um deles fala:

- Meu nome é Otávio, eu sou acadêmico, faço mestrado em Letras e blablablá.

Obviamente, não prestei atenção no blablabá porque Otávio é um nome não muito comum. E um Otávio que faz mestrado em Letras, menos comum ainda. Olhei pro carinha lá na frente, magrinho, cabelo curto, e concluí que era mesmo ele.

Na hora de me apresentar, saiu assim:

- Meu nome é Aline, sou jornalista, adoro cinema, vim ampliar meu repertório. Sou muito distraída e, acabei de descobrir, meio cega também. Porque eu entrei na sala vim até o fundão e só agora eu percebi que o meu irmão está sentado aí.

E a mão do Otávio se levantou lá na frente.

Repetindo, se eu não cumprimentei, é porque eu não vi. Se eu não vi, é porque não me lembro quem é. Ok?