sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Maritacas

Chega uma época do ano em que há muitas maritacas por perto. Aqui, nos fundos de onde trabalho, elas vivem, em bandos e aos gritos. São lindas, mas são irritantes. Gritaria de maritaca tira a gente do sério.

Em geral, elas aparecem em agosto. E ficam por aqui na época de calor. Ou seja, ainda há muito tempo de maritacas pela frente.

Rubem Alves, certa vez, escreveu sobre as maritacas. E sobre seus parentes mais próximos, os adolescentes. O texto chama Carta aos pais dos adolescentes (a íntegra pode ser vista aqui), é muito bacana, fala sobre amizade e adolescência. Mas a parte que me interessa, hoje, vai abaixo:

Porém, acredito que o enigma dos adolescentes pode ser decifrado se estudarmos o comportamento social das maritacas...
Sim, as maritacas, mesmo sob exame superficial as semelhanças saltam aos olhos.
Para começar, andam em bandos. Depois, são todas iguais. (Você já viu um adolescente se vestir diferente dos outros do seu grupo? Tênis da mesma marca, jeans da mesma grife).
Sabiás não padecem de crise de identidade. São aves solitárias e por isso cantam bonito.
Quando eles cantam todos se calam e escutam.
As maritacas são o oposto. Gritam todas ao mesmo tempo. Os adolescentes se comportam desta mesma maneira. É como se gritassem: _"me vejam,me vejam"!
Longe dos olhos dos outros, agarram o telefone, porque longe dos olhos dos outro eles se sentem perdidos. E para essa doença não há remédio. Ela se cura com o tempo.
E, finalmente, maritacas e adolescentes não se impotam com a direção em que estão indo. Importam-se, sim,com o "agito" enquanto vão.
Adolescentes parecem não ter medo de nada. Mas eles têm um medo medonho da solidão. Por isso, estão sempre em grupos. Mas essa sociabilidade de que é feito o grupo é o oposto da amizade. Porque ela é feita de igualdades. Quem é diferente do grupo está fora.
A amizade começa quando a gente não pertence a grupo algum.
Amigo é a pessoa com quem a gente pode estar triste sem que ele faça coisas para nos alegrar. Porque a tristeza também é parte da vida. É para ser amigo dela.
Quem faz amizade com a tristeza fica manso, escuta, pensa...
Por isso, temos que não fazer nada e ficarmos apenas por perto, até que o tempo seja a razão.