quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Citações 7

De Meursault, personagem de O Estrangeiro, de Albert Camus:


No início da minha detenção, no entando, o mais duro foi virem-me à cabeça pensamento de homem livre. Por exemplo, sentia de repente desejo de estar numa praia e de correr para o mar. Imaginando o barulho das primeiras ondas sob as plantas dos pés, a entrada do corpo no água, a libertação que era para mim o banho de mar, sentia de repente até que ponto as paredes da prisão me cercavam. Mas isto durou apenas alguns meses. Depois, passei a ter unicamente pensamentos de prisioneiro. Aguardava o passeio cotidiano no pátio ou então a visita do advogado. No resto do tempo, passava menos mal. Nessa altura pensei muitas vezes que, se me obrigassem a viver dentro de um tronco seco de árvore, sem outra ocupação, além de olhar a flor do céu por cima da minha cabeça, ter-me-ia habituado pouco a pouco. Observaria a passagem das aves ou os encontros entre as nuvens, tal como aqui observava as extraordinárias gravatas do advogado e como, num outro mundo, esperava até sábado para apertar nos meus braços o corpo de Maria. Ora, a verdade, afinal de contas, é que eu não estava dentro de um tronco de árvore. Havia pessoas mais infelizes o que eu. Acabamos por nos habituar a tudo, gostava a minha mãe de dizer.


Minha mãe costumava dizer que nunca se é completamente infeliz. Mesmo na prisão continuava a concordar com ela, quando o céu se coloria e um novo dia entrava na minha cela. Porque, logo que ouvisse passos, o meu coração era capaz de rebentar. Mesmo se o mínimo som me atirasse de encontro à porta, mesmo sem, orelha colada à madeira, eu esperasse desvairadamente até ouvir a minha própria respiração, assustado por a achar tão rouca, e se, tal a agonia de um cão, ao fim desse período o meu coração rebentasse, tinha ganho ao menos mais vinte e quatro horas.